Estou lendo um livro muito bom chamado “Switch – How to change things when change is hard”. Realmente estou gostando da abordagem sistemática dos autores. Neste livro um conceito interessante é a existência de informações TBU – “true but useless” – em português “verdadeiras mas inúteis”. Um exemplo do livro é o de um trabalho feito no Vietnã para redução da desnutrição infantil. Um monte de artigos, teses, monografias, etc foram produzidas mostrando o impacto da falta de educação, saneamento básico, poucos investimentos, etc na desnutrição infantil. Todas informações provavelmente VERDADEIRAS. Só que 100% delas inúteis para resolver o problema da desnutrição. É isso mesmo. Todo mundo sabe que a falta de investimento em eduçação causa desnutrição. E daí ? Alguém espera que os investimentos sejam aumentados a níveis adequados ? Em quanto tempo ? Nada simples. Enquando isso um monte de crianças morriam. A solução dada por Jerry Sternin em 1990 foi ignorar isto tudo e olhar as informações verdadeiras e úteis. Como é que algumas crianças se mantinham saudáveis vivendo “aparentemente” nas mesmas condições ? Como as melhores práticas podem ser replicadas, etc. Não vou contar a história toda, mas o foco nas coisas úteis salvou MUITAS vidas. Mais informações aqui.
Interessante que ao ler o artigo “Brasil tem mais doutores, mas produz pouca inovação”, falando do encontro de um monte de gente importante, me deparei com um monte de informações TBU. Todas verdadeiras e inúteis. Por exemplo:
“… atribuiu o problema a uma opção da empresa brasileira: ao invés de investir em inovação, ela prefere comprar a tecnologia que vem de fora do país.”
“o senador … criticou a falta de visão do empresário brasileiro, que, segundo ele, sacrifica o futuro em função de resultados em curto prazo.”
“…afirmou que a capacidade de inovação tecnológica de um país e sua competitividade industrial estão ligadas ao desenvolvimento das engenharias, outra situação que considerou preocupante.”
“Se o Brasil crescer de 5% a 7%, um dos cenários traçados pelo Ipea, haverá falta de engenheiro”
“… disse que o Brasil está diante do chamou de “apagão de gente”, em que a demanda por profissionais qualificados não é atendida pelas escolas de formação.”
Qual a chance do problema do “Brasil produzir pouca inovação”ser resolvido deste jeito ? Na minha opinião é ZERO. Alguém realmente acha que as empresas, por exemplo, compram inovação de fora porque acham legal ? Empresa vive de resultado. Não de sonho.
O que falta é abordar o problema de forma sistemática e inovadora. Quais são os Bright spots ? O que está sendo feito em locais que dão certo ? Quais os JBTDs que estão sendo atendidos ? Quais as contradições e princípios inventivos para resolverem as mesmas ? Qual o plano de ação ?
Querem saber uma das causas principal disto tudo ? Doutores no Brasil são formados para serem professores. Só isso. Quem são os responsáveis ? As próprias universidades e seus professores. Por que as empresas não contratam os doutores ? Porque são péssimos como empregados. Torne-os mais profissionais e as empresas os contratarão.
Sugiro eu mesmo algumas ações simples. Por exemplo, permitam que alunos bolsistas de mestrado e doutorado façam estágios em empresas, sem ônus para as empresas e reconhecendo créditos dos alunos. Coloquem uma cadeira de empreendedorismo nos cursos de física e engenharia e convidem empresários para dar palestras (muitos vão de GRAÇA). A SBF (Sociedade Brasileira de Fisica) poderia começar colocando, pelo menos, um link na página principal dela explicando o que um fisico faz.
Finalizando. Mais do que boa vontade, falta método e simplicidade para fazer a coisa direito. Ficar falando de TBUs em eventos no congresso é bonito, mas não ajuda em nada.





